Regresso a «L' Affiche Rouge»
"Estrangeiros e,
no entanto, nossos irmãos"
(Louis Aragon)
Num bom exemplo de uma contribuição para manter viva a memória histórica, incluindo sobre quanto a França deve a estrangeiros, a TF2 transmitiu, em estreia, em 15 de Fevereiro passado, um documentário realizado por J
orge Amat, muito saudado pela crítica, e intitulado "La traque de l' affiche rouge" ("A perseguição do cartaz vermelho") que reconstitui, em termos cinematográficos, um dos episódios mais comoventes e exemplares da resistência à ocupação nazi naquele país que ficou conhecido precisamente pelo nome de "L'affiche rouge". A meio de Novembro de 1943, após uma implacável perseguição e um paciente trabalho de investigação em que a tortura dos resistentes ocupava um papel central, a Brigada Especial dos serviços secretos do regime de Vichy, em estreita colaboração com a Gestapo, conseguiu desmantelar e capturar um grupo de 23 resistentes, dirigidos militarmente pelo arménio, torneiro, poeta e comunista Missak Manouchian (na foto à direita), pertencentes aos FTP-MOI (Franc-Tireurs Part
isans - Main d'Oeuvre Immigré) e quase todos estrangeiros, muitos dos quais já tinham anteriormente participado nas Brigadas Internacionais na Guerra Civil de Espanha. Este grupo (constituido por oito polacos, cinco italianos, dois húngaros, dois romenos, dois arménios, um espanhol e três franceses originários de outros países) era na época o único grupo armado da resistência activo na região de Paris e, designadamente durante o ano de 1943, tinha desenvolvido um enorme conjunto de espectaculares acções (quase uma em cada dois dias) dirigidas contra os ocupantes nazis (sabotagem de comboios militares, liquidação de altas patentes da Whermacht, etc.).
As autoridades alemãs e o regime colaboracionista do Marechal Petain decidiram então conceb
er uma enorme operação de propaganda a partir do facto de quase todos os resistentes daquele grupo serem estrangeiros e, assim, entre 10 e 14 de Fevereiro de 1944, produziram e afixaram por toda a França um cartaz de fundo vermelho (à esquerda) com as fotografias, nomes e nacionalidades de dez dos capturados e o texto "LIBERTADORES ? A LIBERTAÇÃO PELO EXÉRCITO DO CRIME !". Já a poucos meses da libertação de Paris, a manobra propagandística dos nazis e dos seus colaboradores franceses, baseada na xenofobia, no anti-semitismo e no anticomunismo, não resultou e teve como resposta democrática e antifascista a realização de numerosas pichagens de solidariedade com o «grupo Manouchian» ( à direita, em baixo, a fotografia de oito a seguir à sua prisão) e de louvor pela sua luta pela libertação da França.
Os 23 resistentes de "L'Affiche Rouge" foram julgados em audiência pública (por razões de propaganda) em 14 e 15 de Fevereiro e 22 foram fuzilados a 21 de Fevereiro numa clareira do Mont-Valérien, tendo Missak Manouchiam e o espanhol Alfonso Celestino recusado a venda nos olhos no momento da execução. A única mulher do grupo,
a romena Olga Bancic, foi transferida para a Alemanha e decapitada em Estugarda em 10 de Maio de 1944, precisamente no dia em que completava 32 anos. Em carta escrita à sua mulher Mélinée no dia da sua execução, Missak Manouchian escrevia que "alistei-me no exército de libertação como voluntário e morro a dois dedos da vitória e do fim. Felicidade para aqueles que nos vão sobreviver e gozar a doçura da liberdade e da paz de amanhã. Estou certo que o povo francês e todos os combatentes da liberdade saberão honrar dignamente a nossa memória".
A partir de 1955, a memória histórica da abnegação, coragem e heroísmo do grupo de "L'affiche rouge" passou a ficar associada ao belíssimo poema que Louis Aragon lhes dedicou, primeiro com o título Strophes pour se souvenir ("Estrofes para nos lembrarmos") e que foi depois, em 1959, musicada e cantada por Leo Ferré, passando a ser definitivamente conhecida por L'affiche rouge. P.S. especialmente para Jorge Wemans: no sentido de evitar que apenas venhamos a ver este documentário daqui por uns anos, por puro acaso, num daqueles canais de cabo de que nunca fixamos o nome nem a programação, não poderia a RTP/2 assegurar a compra e a transmissão desta obra? A produtora chama-se Compagnie des Phares e des Balises e pode ser contactada pelo mail info@phares-balises.fr .
2 comments:
Obrigado por nos recordar.
RC
Obrigado, o seu blog já faz parte do meu percurso, é bom saborear cerejas logo de manha, fiquei mais culto com este tema.
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