Um pouco mais de cuidado, s.f.f.
Ainda bem que, independentemente do número de leitores realmente interessados, aqui publiquei ontem um resumo das sondagens sobre o que chamei «os bastidores» da votação de domingo passado na França. Isso permite que, com um pouco de «scroll», os leitores possam ajuizar melhor da correcção ou incorrecção das discordâncias que aqui venho manifestar em relação a certas frases hoje publicadas no Público. Assim, por exemplo, em editorial, J. M. Fernandes depois de observar que «as sociedades contemporâneas já não podem ser explicadas pela velha cartilha socialista, bastando para tal olhar o mapa eleitoral da França», logo acrescenta que «Sarkozy recolheu mais votos dos trabalhadores excluidos do que Ségolène, como que herdando eleitores que primeiro foram comunistas e depois lepenistas e agora têm mais medo da França que os rodeia do que da forma como o novo Presidente pretende enfrentar a violência dos subúrbios».
Ora acontece que o facto de esta herança deste tipo de eleitores ter certamente acontecido (embora de forma provavelmente parcial) na 2ª volta, isso não chega para provar a tese fundamental de J.M.F. de que «Sarkozy recolheu mais votos de trabalhadores excluídos do que Ségolène». Com efeito basta fazer o tal «scroll» aí para baixo, para se perceber que Ségolène recolheu mais votos, segundo todos os estudos, nos desempregados (com 75%) e nos operários (com 54%), e que onde Sarkozy recolheu mais votos foi nos trabalhadores independentes (com 77%), nos comerciantes (com 82%), nos agricultores (com 67%), sem que nenhuma destas categorias integre propriamente o batalhão dos «excluidos». É certo que Sarkozy ganhou nos reformados (com 65%) mas talvez seja um pouco excessivo classificá-los enqunto grupo social como «excluídos».
Pode haver quem diga que, está bem, mas isto foi na segunda volta, talvez na 1ª tenha acontecido o que J.M. Fernandes descreve. Mas a verdade é que de facto não aconteceu; com efeito, segundo estudo da IPSOS, aí o voto dos operários foi à escala de 24% para Le Pen, de 21% para Ségolène, de 2o% para Sarkozy e de 17% para Bayrou. E também aí Sarkozy teve importantes e significativas vantagens sobre Ségolène quanto ao voto dos agricultores e dos comerciantes e, para um e outro lado, houve diferenças pouco volumosas no voto das profissões liberais e intermédias.
De igual modo, não me parece que J.M. Fernandes tenha razão quando afirma que «o voto pequeno-burguês, o voto da classe média, esse foi depressa para Ségoléne assim como uma parte do voto rural, numa curiosa inversão de bases eleitorais». Mas não é nada disto que os estudos feitos revelam : com efeito, Sarkozy obtém 57% nas aglomerações rurais (contra 43% de Ségolène) ; em termos de nivel de rendimento do agregado familiar Sarkozy ganha a Ségolène no «médio inferior» (com 53%), no «médio superior» (com 52%) e no «elevado» (com 57%), só perdendo para Ségolène no «modesto» (que lhe dá 56% dos seus votos); quanto ao nível de diploma obtido, Sarkozy ganha em todos, sendo mais expressiva a sua vantagem em relação a Ségolène no bacharelato e no ensino superior.
Dito isto, fica para outra ocasião o devido comentário ao que chamaria de precipitações ou de confusões entre desejos e realidades, como aconteceu nesta mesma edição do Público com Teresa de Sousa a mandar o PCF «para o museu» e a acreditar que «a direita descomplexada de Sarkozy desferiu (...) a machadada final na extrema-direita xenófoba de Jean-Marie Le Pen».
PS; no seu excelente e indispensável «Margens de Erro», Pedro Magalhães refere que, para as próximas legislativas, o Movimento Democrata de François Bayrou já vai com 15%. A verdade é que ele se reporta uma sondagem CSA feita no dia da votação da 2ª volta das presidenciais. Ora, se bem me lembro, uma sondagem sobre um acto eleitoral distinto e posterior feita no dia em que ocorre outro tende naturalmente a alinhar as intenções de voto futuras por aquelas que se acaba de exprimir. Isto, acrescento eu, sem prejuízo de reconhecer que só falta um mês para a 1ª volta das legislativas, o que pode ter os seus específicos reflexos e consequências. Adenda em 9/5: em P.S. a um seu «post» sobre sondagens para legislativas em França, Pedro Magalhães escreveu, tranquila e cordialmente, que «Vítor Dias tem razão na nota [este meu P.S.] que faz (e não é por ser tão amável) e já agora, no resto do post também».
3 comments:
Mas ainda há quem se dê ao trabalho de desmontar o que JMFernandes diz?!
Depois de ter ouvido há um mês todos os participantes do Contraditório (Carlos Magno, Luis Delgado, Ana Sá Lopes e António Luís Marinho), em princípio simpatizantes do que JMF diz, dizerem que JMF andava um completamente obcecado com a licenciatura do Socrates, eu desisti de ler esse senhor.. e de comprar o Público.
É o que se chama "forçar" a realidade, tentar ler aquilo que não está lá. E tambem me parece de uma grande falta de honestidade intelectual!
Perdoa não responder ao teu texto - estou indignado - aguardo a tua visita ao meu blog
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