07/07/07

Cunhal e a chaimite


Não, não foi assim... (1)


Não tendo visto a entrevista de Zita Seabra a Judite de Sousa, na passada quinta-feira na RTP/1 (a propósito do seu livro Foi assim), encontro por acaso neste blogue uma curta descrição da entrevista, em que a certa altura, o blogger respectivo salienta que Zita Seabra «considera que Álvaro Cunhal seguia a linha de Lenine, tendo-o imitado até na chegada a Lisboa quando chegou a Santa Apolónia, ao procurar um blindado e subiu para cima dele, tal como Lenine havia feito na máquina do comboio á chegada à sua terra, vindo do estrangeiro também».
Para além do disparate da referência a Santa Apolónia, e com a ressalva que já indiciei e que, neste caso concreto, significa que não sei se Zita Seabra disse, de facto, tal coisa na entrevista ou se foi o «blogger» que resolveu apimentar o seu relato com esta «estória», acho oportuno, a pensar nos mentirosos(as) compulsivos(as) que pululam desde há muito na nossa vida política, salientar o seguinte:
1. É certo que esta fantasia que atribui a Álvaro Cunhal, à chegada a Lisboa, uma imitação deliberada de Lénine ao falar em cima de uma chaimite já foi debitada milhares de vezes mas isso não chega para transformar uma mentira em verdade nem para converter uma efabulação num facto histórico.
2. Quem durante anos tem andado a insistir nesta mentira ou fá-lo por má-fé política ou não faz a mínima ideia de que em condições se processou a chegada de Álvaro Cunhal ao aeroporto da Portela.
3. Com efeito os muitos que, como eu, estiveram lá, não do lado de fora mas dentro do aeroporto, podem testemunhar e até jurar pela saúde dos seus entes mais queridos, que a chegada de Álvaro Cunhal, a partir do momento em que saiu da pista para entrar no edíficio, decorreu na maior das confusões de abraços, apertões e «cerco» por dezenas de jornalistas, como as imagens já muitas vezes passadas pelas televisões claramente revelam, e tudo isto enquanto se ia dirigindo para o exterior do aeroporto.
4. É mais que certo que, ao dirigir-se para o exterior, Álvaro Cunhal não fazia a mais pequena ideia sobre de onde iria falar aos que foram esperar, tanto mais que, à porta, se geram uns segundos de hesitação que, ponto muito importante, terminam com a sugestão-indicação do então major Jaime Neves para que falasse de cima da chaimite que ali estava estacionadada.
5. Embora sem ser em papel selado (que também já acabou), por minha honra e dignidade, aqui declaro que esta é a pura e cristalina verdade dos factos que tem de ser corajosamente oposta a todos e a todas que, de estrutura intelectual esponjosa, tenham resolvido absorver todas as mentiras, caricaturas e deturpações que lhes dêem jeito. Dito isto, palpita-me que, em relação ao combate a mentiras recentemente repetidas, ainda a procissão vai no adro.

Adenda em 12/7: Não posso deixar de assinalar que, no texto do livro de Zita Seabra, as coisas ainda são piores do que imaginar se podia. Repare-se na descrição que faz, na pág. 219, da chegada de Álvaro Cunhal : «Nesse dia, 30 de Abril, mal cheguei a ver o Camarada mas aquilo que vi correspondia à imagem mítica que tinha dele. Saiu do aeroporto em cima de um tanque, como Lenine na Estação Finlândia em Petrogrado, e rodeado de marinheiros, o ramo das forças armadas inde o partido teve sempre uma organização mais forte». (sem comentários!). Mas ainda há pior e está nas páginas 226 e 227 onde Zita Seabra escreve o seguinte :«Foi por isso [impedir a exclusão do PCP do futuro poder] que, chegado ao aeroporto da Portela, Cunhal se dirigiu de imediato (...) à Cova da Moura para reunir com o general Spínola. Era ao povo, ou à Sorefame, ou aos capitães de Abril, ou a nós militantes do interior que Cunhal se dirigia em primeiro lugar ? Não. Foi directamente para uma reunião com o general Spínola». A este respeito, já se impõe a caridade de um comentário. Apenas para dizer que a distraídaZita Seabra nem reparou que a quem Álvaro Cunhal se dirigiu em primeiro lugar, através do discurso feito em cima da chaimite, foi a todos os que o tinham ido esperar e, através da comunicação social, a todos os portugueses !

Adenda em 27/7: catorze dias após a publicação deste «post», em entrevista ao Sol publicada em 21/7, Zira Seabra volta repetir que «quando Cunhal chegou (do exílio de Paris) subiu a um tanque, como Lenine em São Petersburgo». Tudo visto, o mais importante não é que a cidade russa em causa na altura se chamava Petrogrado, mas sim que não há esclarecimentos nem desmentidos que amorteçam a congénita pulsão de Zita Seabra para a mentira e efabulação.

11 comments:

Maria disse...

Só vi parte da entrevista e foi horas mais tarde, na rtp-n.
E só vi parte porque o meu estômago é delicado e não aguenta tanto...
Vi os últimos 10 ou 15 minutos, à conta daquela "costela masoquista" que todos temos.
A seguir fui tomar água das pedras.
Há 3 grupos de pessoas: as que têm vergonha, as que não têm vergonha e as desavergonhadas. A entrevistada pertence ao último grupo.

manuelmgaio disse...

Também só aguentei ver uma parte da entrevista, até perceber que não passava de pura campanha anticomunista, com argumentos pouco inteligentes, muitas contradições.
Como já disseram, parecia que a entrevistada estava a ver-se ao espelho e a descrever-se a si própria e não ao PCP.
Mas a caravana passa...

Hertz disse...

Os cães ladram e a caravana passa!
Faço das palavras de Urbano Tavares Rodrigues, as minhas palavras
(cintando um parágrafo do seu post de: 06-07-2007)
…entre ventos e tempestades,
interrogações, incertezas e angústias,
ter-me mantido sempre fiel a mim próprio
(«e aos outros», intercala o entrevistador)
"E aos outros.

Anónimo disse...

Esse facto é muito secundario na uma entrevista. O principal é que ela que revela fundamentalmente, a forma dogmatica como muitos militantes de ontem e de hoje vêm o PCP.

Não pensam,agem por indicações superiores, olham para o partido como uma igreja, e a linha politica como um conjunto de dogmas que não se devem pôr em causa.

Cumprem-se as ordens e pronto, tudo a bem de um objectivo, que as mais das vezes, nem sabem bem definir qual seja.

E é tudo isso que atravessou a entrevista de Zita Seabra, mas ela no fundo, é um produto acabado daquilo que na pratica diaria, são a maioria dos militantes do PCP.

Um dia acordam para a realidade e então ficam desorientados por não terem pensado, questionado, levantado dúvidas , em suma serem na realidade militantes.

Fernanda Valente disse...

1. Na entrevista que ela deu a Fernanda Cância, publicada hoje no DN, existem factos muito mais relevantes a ter em conta na história (modus actuandi) do PCP, do que o simples episódio do discurso na chaimite.
2. Tenho dificuldade em entender como é que uma militante histórica do PCP é contra a prática do aborto, e, inclusive, ao que consta, faz uma alusão a uma passagem biblica no seu livro. Como é que essa mesma ex-militante transita de um partido marxista-leninista para um partido social-democrata e insinua posicionar-se à direita de Marques Mendes. Das duas uma, ou aquela corrente ideológica não passou de um "flop" na história da humanidade, ou o ser humano não é mais do que uma súmula de mistérios bem guardados, sempre pronto a surpreender.
3. No livro haverá alguma referência a João Amaral?
Não há dúvida de que o PCP vende...

manhã clara disse...

No outro dia, numa daquelas entrevistas ligeiras do Sol, Saramago dizia que "o ser humano não é de fiar" (bom, se não era isto, a ideia era a mesma). Ao olhar esta mulher e o seu percurso e ao recordar outras companheiras dela que não se deslumbraram com o brilho dos salões, discordo do escritor e reformulo a apreciação: HÁ seres humanos que não são de fiar.

samuel disse...

Já tenho comentado o fenómeno zita seabra, em conversas e mais conversas com amigos que também sentem por vezes curiosidade em tentar entender a criatura, mas agora e aqui, não.
Está practicamente na hora de ir almoçar e, francamente, à hora das refeições, há assuntos e sujeitos que não é lá muito higiénico falar.

rms disse...

Confesso que não vi a entrevista, mas, pelo que ouvi, vindo de comunistas e não comunistas, é que a senhora apenas confirmou a figura triste da política portuguesa que representa.

É tão infeliz que, pelo que me foi dito, ressalvo, grande parte da entrevista foi passada pela entrevistadora a tentar saber mais coisas sobre Álvaro Cunhal do que sobre a autora.

Ou seja, basicamente, a autora acaba por perder o protagonismo que queria, para aquele que menos queria...

A vida tem destas coisas...

Mar Arável disse...

ZITA SEABRA - A CARNE É FRACA -

DE FACTO - NO CASO VERTENTE SÓ POSSO ENTENDER A CRIATURA DISPONÍVEL PARA O MERCADO

mulher a dias do pcp?

Agora mulher a dias de quem?

Anónimo disse...

Onde está um laivo de critica politica ao que disse a Zita.

È confrangedor o teor da maioria destes comentários.

Quer queiram ou não, Zita é um produto tipico do PCP, e a sua evolução não é mais do que a consequência, de não haver debates realmente ideológicos no PCP.

Antes do 25 de Abril os controleiros davam as tacticas, o periodo dificil e a repressão justificavam, que não se discutissem as directrizes vindas de cima.

Depois do 25 de Abril o processo manteve-se, e por isso em lugar de um partido de debate, o PCP transformou-se num partido de obedientes.

E Zita foi o melhor exemplo disso, não interrogava não questionava limitava-se a cumprir , e assim chegou á Comissão Politica do CC.

Não pela sua capacidade teórica, não porque fosse um quadro de eleição, mas sim porque era obediente e cumpria bem as ordens.

Só que um dia, quem não tem bagagem ideologica que lhe permita justificar politicamente as evoluções do Mundo.

Quem nunca se habituou a pensar por si proprio, perante alguma adversidade, não tem arcaboiço para ir á luta, e o resultado é este.

Alguem ressabiado, que não entendeu nunca por onde andou, e que agora dispara em todas as direcções.

Mas o mais confrangedor é a ignorancia dos objectivos reais do PCP.

Algum dia o PCP quis a revolução popular armada no 25 de Novembro, como ela insinua , realmente a senhora devia de andar cega , surda, e muda.

Mas atenção ela deveria servir de aviso a muitos militantes.

É que o molde com que ela foi criada, ainda é o mesmo que está em uso.....

Cecília disse...

Vale a pena ler o que o Nuno Ramos de Almeida diz no "Cinco dias". Uma outra perspectiva também muito crítica.