25-03-2008

Políticos e vida privada

Sábias palavras

A propósito ou a pretexto da recente declaração pública do novo Governador de Nova Iorque, David Patterson, de que ele e a mulher, em certo período tinham tido casos extra-conjugais ( declaração que obviamente visou desarmar posteriores «revelações» hostis), José Vítor Malheiros assina hoje no Público um texto, penetrante e judicioso como é habitual, em que, logo no antetítulo começa por sustentar lapidarmente que «recusar aos políticos a reserva da sua vida privada é recusar a própria dignidade do que é privado».
Pelo seu interesse, permito-me citar na íntegra o parágrafo final desta crónica:«O segredo não é uma característica do vergonhoso como defendem os inquisidores, mas um direito e uma condição de liberdade. Não é que tenhamos o direito de não responder a estas perguntas. Temos o direito de não ser interrogados sobre elas. Temos o direito a que ninguém (na esfera pública) nos pergunte se dormirmos com outra mulher ou com outro homem. E temos o direito e o dever de combater o totalitarismo. O gesto de Patterson exigiu coragem, mas foi também um gesto de concessão ao que de mais venenoso existe nas nossas democracias. Se todos os políticos admitirem esta intromissão na sua vida privada, se admitirem aos rivais, aos media e aos vizinhos este escrutínio da sua esfera íntima, que valores defenderão ? E que garantias nos dão de que irão defender as nossas liberdades, quando chegar a nossa vez ?».
Assino, pois, por baixo. Entretanto, apenas assinalo que José Vítor Malheiros saberá tão bem como eu que, estando isto certo e e sendo tudo isto impecável, esta questão tem mais contornos e aspectos. E, sem desculpar ou absolver a perversidade dos media, tudo se complica quando se sabe que, no quadro da deriva da política-espectáculo, um número sempre crescente de políticos passou a usar, desvendar e exibir generosamente com objectivos políticos múltiplos aspectos «impecáveis» ou «sedutores» da sua vida privada, sem conta, peso e medida. E, nesses casos, o que acontece é que ficam com pouca autoridade para protestar contra a invasão da sua privacidade em torno de elementos mais « negativos», «sombrios» ou «chocantes» aqueles que antes exploraram politicamente tudo o que, na sua vida privada, era «glamour», beleza, felicidade e brilho.




1 comments:

Mar Arável disse...

Forniquem-se uns aos outros

mas não utilizem asas de anjo

para angariar votos

como puritanos

de merda