24-04-2008

A caminho do 25 de Abril- estórias pessoais ( 4 )


O caule da rosa

Medianamente informado sobre as regras e a disciplina do sistema prisional às ordens da PIDE, nunca consegui encontrar uma explicação inteiramente plausível para a «indisciplina» e relativa «impunidade» que os presos que se encontravam na ala norte do Reduto Sul de Caxias (principalmente os da fila de celas das traseiras que tinham um barreira de terra pela frente das janelas) conseguiram conquistar.
É certo que, nessa ala, para além as mulheres já condenadas a penas de prisão, na sua maioria se encontravam presos em 6 de Abril na sequência de uma detenção acidental e não de uma investigação e perseguição da PIDE a alguma estrutura clandestina do PCP. É certo que, tanto quanto se sabe, dos 40 detidos, toda a gente se manteve firme na treta descarada que estávamos numa reunião para «formar uma cooperativa» apesar da quantidade de panfletos políticos apreendidos pela PSP. Mas, sinceramente, não sei estes traços chegarão para explicar o ponto de indisciplina a que, naquela ala e daquele lado, chegámos. Basta dizer que nem precisávamos de bater nas paredes para comunicar uns com outros; em regra, gritávamos a plenos pulmões pelas janelas, sendo que a barreira de terra em frente talvez facilitasse a propagação do som. E, apenas como exemplo, basta dizer que uma vez, um guarda prisional estava a chatear e ameaçar o Vítor Agostinho e o meu companheiro de cela, o João Pedro, estudante de Agronomia, fiado no seu corpanzil, gritou para a guarda ; «se és homem, vem antes ameaçar-me aqui a mim !». E o guarda prisional rrealmente aceitou o desafio, só que, quando abriu a porta da nossa cela, já encontrou o enorme punho fechado do João Pedro a cinco centimetros da sua cara, retirando de imediato em boa e devida ordem.
Tudo isto para situar uma proeza, certamente rara em Caxias, que eu e o João Pedro conseguimos realizar e que teve o seu ínicio num facto aparentemente despiciendo. Acontece que, uma vez, junto com ao saco de proveniência familiar,me chegou uma rosa enviada pela J. mas que, por descuido ou malvadez dos guardas, tinha o caule quebrado já quase junto à flor. Danado, preparava-me para deitar o caule para o balde do lixo, quando o João Pedro, com uma sabedoria que eu não sabia de onde lhe vinha, me disse: «aprende pá! Numa cela nunca se deita nada fora porque pode sempre fazer jeito».
Ora, na cela à esquerda da nossa, já não me lembro porquê, os companheiros que lá estavam tinham tido direito a receber salvo erro um Diário de Lisboa e eu e o João Pedro já andávamos verdadeiramente famintos de letras impressas. E, como a necessidade sopra o engenho, concebemos uma forma de, obviamente pelo lado exterior, o Diário de Lisboa poder transitar da cela à esquerda para a nossa. Como o vento soprava da esquerda para a direita, o sistema inventado baseava-se no seguinte: os da cela à esquerda através da sua janela punham parte de um rolo de papel higiènico (leve, portanto) a esvoaçar em direcção à nossa cela, depois uniam a ponta do papel higiènico a uma série de tirinhas de sacos plásticos atadas umas às outras e no fim das quais atavam o jornal. O sistema parecia perfeito, acontecia porém que, por causa das grades, não conseguíamos chegar com as mãos ao esvoaçante papel higiénico ali mesmo à nossa frente. E foi, nessa altura, que entrou em acção o aparentemente inútil caule da rosa em boa hora enviada pela J. que nos permitiu puxar o papel higiénico para o alcance da mão e, puxando sempre devagarinho e com muito cuidado, fazer entrar na nossa cela primeiro as tiras de saco plástico e, no fim, o desejado jornal. Abençoado caule de uma rosa !