Guardas prisionais:
o bebâdo «profético»
e o «bom rapaz»
Da minha «estadia» em Caxias (de 6 de Abril à uma da manhã de 27 de Abril de 1974) nunca poderei esquecer os casos muito diversos de dois guardas prisionais, um protagonizando um e
pisódio absolutamente incrível e misterioso e outro que, passados 34 anos, ainda merece a minha admiração e gratidão.Em qualquer dois casos, está absolutamente excluido que eu tivesse sido vítima de alucinações,, além do mais porque não fui sujeito a qualquer tipo de tortura.
O primeiro respeita a um guarda prisional que fazia predominantemente serviço nocturno e que, nessa altura, estava sistematicamente bebâdo que nem um cacho. Acontece que, para aí três dias antes do 25 de Abril, perto da meia-noite, ele abriu a portinhola da minha cela e eu, aproximando-me perguntei-lhe mal-humorado : «o que é que você quer?». E a espantosa e ainda hoje intrigante resposta que o guarda prisional me deu, com a voz entaramelada pela quantidade de alcoól no sangue, foi nem mais nem menos esta: «parece- que quem vêm para aqui em vosso lugar é o Marcelo Caetano...». E assim aprendi que as bebedeiras podem ter qualidades proféticas ou quase.
O segundo caso respeita a um guarda prisional muito jovem que, a seguir às prisões de 18 de Abril (José Tengarrinha, Fernando Correia, Figueiredo Filipe, Vítor Mateus Branco, António Manso Pinheiro, Gorjão Duarte, Helena Neves, Rosa e Fernando Penim Redondo, Sérgio Ribeiro, Mário Sena Lopes, Orlando Gonçalves, Mário Ventura Henriques e outros), pelo menos por duas vezes conseguiu a proeza de entregar na minha cela sacos de plástico com alimentos provenientes de familiares de presos com um papelinho identificando o nome do preso a que se destinavam e que não era o meu.
E, passados para aí 5 ou 10 minutos, lá aparecia ele com um ar de grande bonomia a dizer: «desculpe mas enganei-me, esse saco não era para si». Fiquei sempre convencido de que ele se «enganava» de propósito, permitindo-me assim ficar a saber que dois democratas (já não me lembra quais) estavam no grupo dos detidos em 18 de Abril.
Depois da libertação, gostaria de lhe ter agradecido e dado um abraço, mas a vertigem dos acontecimentos não o proporcionou. E assim aprendi que até nos sítios piores pode haver gente boa.

1 comments:
Das reportagens que vi na televisão no dia e noite do 25 de Abril,nunca me vou esquecer da saída dos presos de Caxias.No principio dos anos sessenta visitei um familiar nessa prisão,eu ainda não tinha vinte anos e pouco sabia de politica,mas vim para casa muito triste e revoltada,senti-me como se tivesse uma mão a tapar-me a boca.Quando as portas se abriram e vi todos vós,a maior parte eu não conhecia,nessa altura eu respirei a liberdade,percebi que a partir dali a revolução já era uma realidade.
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