A minha saída de Caxias às
Um estranho dia
e a pior noite
A forma como o dia 25 de Abril de 1974 foi vivido na prisão de Caxias já foi contada em diversos livros e testemunhos e, por isso, a pensar apenas em quem nada saiba sobre isso, opto por um resumo do essencial ou mais significativo dessa situação que fez com que eu e muitos outros tenhamos menos um dia e meio de liberdade do que 99,999% dos nossos contemporâneos.
Se não estou em erro, o primeiro sinal de que «alguma coisa» se passava foi a anulação do chamado «recreio» (ou seja uma hora para desentorpecer as pernas no terraço da prisão, que, se não me engano devia ter ocorrido a seguir ao almoço. E, de cada vez, que dávamos murros na porta da cela a chamar o «funcionário» (ou seja o guarda prisional mais responsável daquela ala), o que nos aparecia era uma persinagem crescentemente atrapalhada e nervosa que apenas repetia que naquele dia o «recreio» tinha sido cancelado. O segundo sinal foi que a normal equipa da GNR que fazia vigilância no morro traseiro, a certa altura, passou de dois para três elementos com cartucheiras reforçadas e capacete militar (que normalmente não usavam). Entretanto, ao longe e de forma muito difusa, pareciam ouvir-se uns acordes de música militar.
À noite, as coisas agravaram-se, porque por cima das celas e por causa de barulhos de contacto de metal com cimento, sentimos que a GNR estaria a instalar metralhadoras no terraço e é nessa altura que todos, creio, tomámos mais perfeita consciência de que podiamos estar à mercê de retaliações (ou ser usados como reféns) por parte da PIDE face a algo que se tivesse passado e que não sabíamos o que era.
Ao fim da noite, o José Tengarrinha ainda comunicou a toda a fila de celas que tinha ouvido uma mensagem transmitida por claxon de automóvel (soubémos depois que quem o fez foram o Carlos Carvalhas e o Pedro Ferreira) que se referia «ao governo» ou que «o governo tinha caído» mas a expressão era ainda imprecisa, incerta e pouco clarificadora (até porque temia-se um golpe de Kaúlza de Arriaga).
Na sequência destes índicios, decidimos barricarmo-nos nas celas tapando a porta com o armário da cela e julgo que encostando-lhe também o beliche, e passámos a noite em branco, seguramente em termos políticos, a pior noite da minha vida (a segunda terá sido a noite de 27 para 28 de Setembro de 1974), num alerta, numa tensão e num desgaste que só terminariam na manhã de dia 26, com a tomada de Caxias pelos fuzileiros.
Na altura não o sabíamos, mas viemos a saber depois que, ao fim da tarde de 25 de Abril, a CDE de Lisboa tinha feito um comunicado chamando a atenção para facto gravíssimo de os presos políticos continuarem nas mãos da PIDE, o que testemunha que, felizmente, enquanto no país começava justamente a euforia, havia entretanto amigos, companheiros e camaradas que tratavam a sério do que urgia tratar.
o1 hs. de 27 de Abril de 1974
[para aligeirar e desanuviar a temática, informo que a imagem capilar nem sequer corresponde aos padrões da época: o cabelo curto e as barbas compridas patentes na imagem resultam apenas da «filosofia» que me foi firmemente exposta pelo barbeiro da cadeia - «estou aqui para cortar cabelos, não para aparar barbas».]
25-04-2008
A caminho do 25 de Abril - estórias pessoais ( 5 )
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4 comments:
Em Peniche a coisa foi mais complicada, até porque Spinola não queria que alguns presos politicos fossem libertados, e só a posição solidaria , da MAIORIA dos restantes presos, impediu que isso sucedesse.
Francisco Martins Rodrigues, que nis deixou esta semana era um dos casos, que Spinola não queria que fosse libertado.
esclarecimento a «anónimo» das 14:28:
Não creio que em Peniche a coisa tenha sido mais complicada. TaMBÉM EM cAIXAS ESTAVAM VÁRIOS ACUSADOS DE «terrorismo» (com Palma Inácia e os presos em processo de julgamento do processo da ARA)e também aí, como testemunha a Conceição Moita, no blogue da Joana Lopes, todos assumimos a posição de que ou saíam todos ou não não saía ninguém. Mais ao fim da tarde de dia 26, o José Tenharrinha comunicou aos militares que a partir salvo erro das 20 hs. nos considerariamos prisioneiros políticos do novo poder.
Vitor Dias, falo de Peniche, lá houve alguns que furaram essa posição...
Mas isso já é historia.
Camarada,
podemos tomar como promessa o relato dessa segunda pior noite, de 27 para 28 de Setembro de 1974?
HM
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