25-04-2008

A caminho do 25 de Abril - estórias pessoais ( 5 )


Um estranho dia
e a pior noite


A forma como o dia 25 de Abril de 1974 foi vivido na prisão de Caxias já foi contada em diversos livros e testemunhos e, por isso, a pensar apenas em quem nada saiba sobre isso, opto por um resumo do essencial ou mais significativo dessa situação que fez com que eu e muitos outros tenhamos menos um dia e meio de liberdade do que 99,999% dos nossos contemporâneos.
Se não estou em erro, o primeiro sinal de que «alguma coisa» se passava foi a anulação do chamado «recreio» (ou seja uma hora para desentorpecer as pernas no terraço da prisão, que, se não me engano devia ter ocorrido a seguir ao almoço. E, de cada vez, que dávamos murros na porta da cela a chamar o «funcionário» (ou seja o guarda prisional mais responsável daquela ala), o que nos aparecia era uma persinagem crescentemente atrapalhada e nervosa que apenas repetia que naquele dia o «recreio» tinha sido cancelado. O segundo sinal foi que a normal equipa da GNR que fazia vigilância no morro traseiro, a certa altura, passou de dois para três elementos com cartucheiras reforçadas e capacete militar (que normalmente não usavam). Entretanto, ao longe e de forma muito difusa, pareciam ouvir-se uns acordes de música militar.
À noite, as coisas agravaram-se, porque por cima das celas e por causa de barulhos de contacto de metal com cimento, sentimos que a GNR estaria a instalar metralhadoras no terraço e é nessa altura que todos, creio, tomámos mais perfeita consciência de que podiamos estar à mercê de retaliações (ou ser usados como reféns) por parte da PIDE face a algo que se tivesse passado e que não sabíamos o que era.
Ao fim da noite, o José Tengarrinha ainda comunicou a toda a fila de celas que tinha ouvido uma mensagem transmitida por claxon de automóvel (soubémos depois que quem o fez foram o Carlos Carvalhas e o Pedro Ferreira) que se referia «ao governo» ou que «o governo tinha caído» mas a expressão era ainda imprecisa, incerta e pouco clarificadora (até porque temia-se um golpe de Kaúlza de Arriaga).
Na sequência destes índicios, decidimos barricarmo-nos nas celas tapando a porta com o armário da cela e julgo que encostando-lhe também o beliche, e passámos a noite em branco, seguramente em termos políticos, a pior noite da minha vida (a segunda terá sido a noite de 27 para 28 de Setembro de 1974), num alerta, numa tensão e num desgaste que só terminariam na manhã de dia 26, com a tomada de Caxias pelos fuzileiros.
Na altura não o sabíamos, mas viemos a saber depois que, ao fim da tarde de 25 de Abril, a CDE de Lisboa tinha feito um comunicado chamando a atenção para facto gravíssimo de os presos políticos continuarem nas mãos da PIDE, o que testemunha que, felizmente, enquanto no país começava justamente a euforia, havia entretanto amigos, companheiros e camaradas que tratavam a sério do que urgia tratar.

A minha saída de Caxias às
o1 hs. de 27 de Abril de 1974

[para aligeirar e desanuviar a temática, informo que a imagem capilar nem sequer corresponde aos padrões da época: o cabelo curto e as barbas compridas patentes na imagem resultam apenas da «filosofia» que me foi firmemente exposta pelo barbeiro da cadeia - «estou aqui para cortar cabelos, não para aparar barbas».]

4 comments:

Anónimo disse...

Em Peniche a coisa foi mais complicada, até porque Spinola não queria que alguns presos politicos fossem libertados, e só a posição solidaria , da MAIORIA dos restantes presos, impediu que isso sucedesse.

Francisco Martins Rodrigues, que nis deixou esta semana era um dos casos, que Spinola não queria que fosse libertado.

VÍTOR DIAS disse...

esclarecimento a «anónimo» das 14:28:

Não creio que em Peniche a coisa tenha sido mais complicada. TaMBÉM EM cAIXAS ESTAVAM VÁRIOS ACUSADOS DE «terrorismo» (com Palma Inácia e os presos em processo de julgamento do processo da ARA)e também aí, como testemunha a Conceição Moita, no blogue da Joana Lopes, todos assumimos a posição de que ou saíam todos ou não não saía ninguém. Mais ao fim da tarde de dia 26, o José Tenharrinha comunicou aos militares que a partir salvo erro das 20 hs. nos considerariamos prisioneiros políticos do novo poder.

Anónimo disse...

Vitor Dias, falo de Peniche, lá houve alguns que furaram essa posição...

Mas isso já é historia.

Anónimo disse...

Camarada,

podemos tomar como promessa o relato dessa segunda pior noite, de 27 para 28 de Setembro de 1974?

HM