24-04-2008

A caminho do 25 de Abril - estórias pessoais ( 2 )


Os apontamentos

sobre o programa do M.F.A.


Algures entre o 16 de Março (data do «golpe das Caldas») e 6 de Abril de 1973 (data da minha prisão), provavelmente mais no final de Março, fui visitado no Sindicato dos Caixeiros de Lisboa, onde trabalhava, por um amigo e companheiro da CDE de Lisboa, na altura capitão miliciano e activamente envolvido na movimentação do MFA.
Era uma visita rápida e vinha sobretudo dizer-me (para dizer a outros) que, nada de confusões, o fracasso do «golpe das Caldas» não tinha alterado nada e que, quanto ao MFA, «tudo continuava a andar». Não me falou em datas e, mesmo que o soubessse, nem ele me responderia nem eu lhe perguntaria, e ambos fazíamos bem porque há coisas que só deve saber quem precisa de saber para...fazer !.
Mas, além disso, vinha informar-me dos pontos fundamentais do programa do MFA que trazia anotados num papelinho. Levei a sério a informação, que transmiti a quem devia ser passada, tomei umas breves notas e muito rapidamente formei a opinião de que aqueles pontos (era a versão anterior às alterações depois impostas por Spínola) correspondiam muito satisfatoriamente às reivindicações fundamentais da oposição democrática. E, sem perder tempo em grandes análises e exegeses, acabámos a coversa com eu a dizer qualquer coisa do género « tudo bem, é preciso é andar para a frente!».
Depois do 25 de Abril, muitas vezes me lembrei deste encontro, desta conversa e desta minha frase, sobretudo quando via ou ouvia alguns, de lupa na mão, a discretear sabiamente sobre o que devia estar e não estava no Programa do MFA (muitas vezes esquecidos da intervenção final que Spínola tinha tido sobre o documento). Pois, ainda hoje, tenho muita honra em confessar que, apesar de muito os ter ouvido e sabendo que não foi a minha opinião que teve qualquer efeito, não estou nada arrependido e antes tenho muito orgulho em ter dito que o que era preciso era «andar para a frente!».