08-04-2008

Sobre uma crónica de Rui Tavares


Assim não vale

Em crónica ontem publicada na última página do Público, a pretexto dos resultados de sondagens recentes, Rui Tavares afirma a concluir (os sublinhados são meus): « A segunda chave está portanto nestes partidos [PCP e BE], nomeadamente no BE. Até agora a sua subida tem-se dado sem esforço aparente, mas só poderá ser mantida se os eleitores sentirem que há propósito nessa subida, ou seja, se ela servir para alguma coisa. Só isso permitirá transformar intenções em votos, principalmente no eleitorado que antes votou no PS. Ora, o voto no PCP serve «para dar força ao PCP»: isso facilita-lhe a vida. Já o BE apareceu como novidade e prometeu mudança. Em consequência, o voto no BE só compensa se a mudança for um horizonte plausível. Caso contrário ser um partido da resistência não chega: para isso já havia o PCP. Para o BE ter mais votos , tem de começar por quer ser mais.»
Neste texto, agora mesmo longamente citado por razões de honestidade intelectual, desvenda-se por parte de uma pessoa inteligente e de um intelectual sério como Rui Tavares ou uma lamentável ligeireza e superficialidade, ou uma patente falta de informação ou um deplorável aprisionamento em ideias feitas ou velhos preconceitos.
De facto, Rui Tavares afirma, por exemplo, que «o voto no PCP serve "para dar força ao PCP"» mas não tenta apurar, não investiga, não procura saber e não se interroga para que quer o PCP ter mais força. Com isto, Rui Tavares foge a confrontar-se com a evidência (longamente documentável e facilmente comprovável), de que o PCP, entre outras finalidades, não quer apenas ter mais força eleitoral para melhor resistir à política dos governos ou para se auto-contemplar safisfeito ao espelho, mas sim para precisamente pesar, contar e influenciar mais na conquista de novas soluções políticas e governativas de carácter alternativo, como tem expresso em sucessivas campanhas eleitorais, incluindo naquela penúltima em que o Bloco de Esquerda ostensivamente se gabava de «correr por fora».
Rui Tavares pode, como eu próprio ou qualquer analista ou cidadão, conjecturar sobre facilidades ou dificuldades e probabilidades ou improbabilidades de um entendimento de incidência governativa e para uma política alternativa entre PS e PCP. E Rui Tavares até pode pensar ou prever que o Bloco de Esquerda será menos exigente em relação ao PS do que será o PCP. Tudo bem: mas então que o diga como sua conjectura ou como sua opinião. O que não pode e não devia fazer é, em vez disso, apresentar implicitamente o PCP como um partido que ele próprio se auto-exclui à partida da intervenção e participação na questão da alternativa, quando a verdade é que todos os documentos fundamentais do PCP (mormente as resoluções congressuais) desmentem tais caricaturas e deformações. Acresce ainda que, talvez por dificuldades de espaço, Rui Tavares se limitou a transportar responsabilidades nesta questão para cima do PCP e do BE (e, como vimos, mais para este último), esquecendo-se, não abordando e não deixando claro que a maior responsabilidade está do lado do PS e de uma corajosa e profunda mudança da sua política.
Em suma, tratou-se de um dia em que menos caricaturas e mais rigor só teriam feito bem à crónica de Rui Tavares.

10 comments:

Diana Costa disse...

Eu compreendo de certa forma o que Rui Tavares diz relativamente á possibilidade de o BE viabilizar um governo do PS caso este não tenha a maioria absoluta.E tambem o facto de os desiludidos com o PS votarem no BE.Grande parte daqueles que votaram PS e estão desiludidos são pessoas da classe média,e esses votam mais fácilmente no BE do que no PCP.Quanto á probabilidade de algum dia o PS vir a governar com o apoio do PCP,mesmo que isso possa estar nas resoluções dos congressos deixe-me que lhe diga que é muito pouco provável.Basta ver a forma como o PCP tem feito oposição ao PS para perceber que o trata como o inimigo principal.Ainda não me esqueci de ter sido feito um congresso extraordinário para aconselhar os militantes a votar Soares nas presidenciais.Uma coisa é ser um partido de protesto outra coisa é assumir responsabilidades e compromissos.Pessoalmente lamento bastante que assim seja mas é a realidade e não podemos negá-la

Anónimo disse...

Como votante do BE desde o seu principio até às últimas eleições e,como votante no PCP a partir de agora,penso que o BE se está a tornar uma muleta do PS(deus queira que não!).
1º:O BE em termos de teoria politica não diz nunca quais as suas fontes(Hayek,Bernstein,Kerenski?).Marx,Engels,Trotky,Rosa Luxemburgo,Gramsci também nunca ouvi falar.Creio q o BE está a fazer de válvula de escape para que tudo fique na mesma e,eu pra esses já dei,apesar do embrulho atractivo e do barulho das luzes...
Penso que é um agrupamento social-democrata com laivos de esquerdismo e,uma vez no governo com o PS vamos vê-los a aacbar como os 'esquerdistas' do MES com bons TACHOS para que tudo fique na mesma.
E,qual é o problema do PS ser o principal inimigo do PCP?se é o PS ocapataz de serviço dos belmiros e outros q tais!

poesianopopular disse...

O Rui Tavares fez a crónica que lhe encomendaram, ou então a que lhe convém para manter o emprego, tal como a Diana Costa que tambem só vê a sua realidade, esquecendo que, existem outras realidades mais realistas, e ainda não reparou que dentro do PS existe o mal e a caramunha.
Chamo-lhe á atenção para a composição dos últimos DESgovernos
do PS.
Recordo-lhe a crise do PS, quando Jorge Sampaio assumiu a liderança, a (contra gosto)de muitos (socialistas) e fez a aliança com A CDU para a Cãmara M. de Lisboa,foi eleito PR com os votos CDU, e a Diana ainda acusa o PCP de fazer do PS o grande inimigo, então quem é para si o maior inimigo do povo?
Não estou mandatado para fazer a defeza do PCP mas, enquanto militante sinto o dever de ripostarcontra a ignorância ou má fé.
José Manangão

VÍTOR DIAS disse...

para Diana Costa:

Deixando de lado opiniões que emitiu e das quais obviamente discordo, creio que Diana Costa não reparou na diferença que procurei estabelecer nesta parte do texto :

«Rui Tavares pode, como eu próprio ou qualquer analista ou cidadão, conjecturar sobre facilidades ou dificuldades e probabilidades ou improbabilidades de um entendimento de incidência governativa e para uma política alternativa entre PS e PCP. E Rui Tavares até pode pensar ou prever que o Bloco de Esquerda será menos exigente em relação ao PS do que será o PCP. Tudo bem: mas então que o diga como sua conjectura ou como sua opinião. O que não pode e não devia fazer é, em vez disso, apresentar implicitamente o PCP como um partido que ele próprio se auto-exclui à partida da intervenção e participação na questão da alternativa, quando a verdade é que todos os documentos fundamentais do PCP (mormente as resoluções congressuais) desmentem tais caricaturas e deformações.»

samuel disse...

Quando o PCP ataca a prática política do PS, está a fazer dele o "inimigo principal". Quando "o ps" diz (por exemplo) que os portugueses devem a liberdade a fulano e sicrano e não a Cunhal... está e ter uma convivência democrática e institucional com o PCP, absolutamente irrepreensível.
É uma maneira de ver a coisa...

Anónimo disse...

PS?qual PS?Ah,o Partido Súcialista!

Anónimo disse...

a melhor câmara que me lembro de ter visto em lisboa (não, não era a do costa/Sá fernandes) tinha lá o pcp e o ps. se iso é horror aos compromissos governamentais...

Anónimo disse...

Começo por achar EXTRAORDINARIO, que alguem diga que foi votante do Bloco até agora, e que entretanto passou a ser votante do PCP.

Ou algo me escapa, ou isto é comentario ENCOMENDADO.

Será porque os exemplos recentes de Luisa Mesquita, e do autarca da Marinha Grande, terão tido influencia na decisão deste comentador.

Será a defesa cega de José Eduardo dos Santos.... de Fidel Castro.... do apoio acritico à posição chinesa sobre os recentes acontecimentos do Tibete....

Ou será que indo um pouco mais longe , concorda com a censura de a Ricardo Araujo Pereira , no passado 25 de Abril...

Desculpem este arrosado ao correr do teclado, mas com politicas trogloditas como as que defende a actual direcção do PCP, certamente deixar de votar BE e ir votar PCP, só pode ser alguem que se recusa a ver a realidade.

Quanto ao Vitor Dias pessoa que prezo, e que considero dos poucos a par do Antonio Filipe que pensam pela sua cabeça, e não gostam de cassetes, a única questão que se pode pôr é o que farão o PCP e o BE ,se os rsultados numas proximas eleições ,colocarem o PS em minoria.

Quais as politicas, que estariam dispostos a apoiar.

E o exemplo de Sá Fernandes em Lisboa, ( goste-se ou não da solução) pode ser um caminho.

Seis ou sete pontos , que se forem cumpridos, podem viabilizar um governo minoritario do PS.

É dificil, esta direcção e estas politicas do PS, nada têm de esquerda, mas se o PS fôr obrigado a arrepiar caminho, até onde está a esquerda disposta a ir.....

Este sim seria um debate interessante.

Aliás é bom não esquecer que o PCP já fez parte de governos com o PS -PSD-e até figuras do CDS, e não me parece que se tenha dado muito mal com isso.

Miguel disse...

último anónimo, repara que pelo teor o teu comentário, também ele poderia ter sido encomendado pelo teu querido Bloco...

Deixando insunuações à parte, queria relembrar que sendo partidos com muitas posições políticas semelhantes, diferindo principalmente na sua forma de agir, na consequência dessa acção e na extensão que têm, é normal que haja transferências de votos.

Mas atenção, contrariamente ao que se faz constar por aí, são recíprocas. No meu concelho, por exemplo, temos novos votantes CDU que chegaram a ser militantes do BE. Não duvido que o contrário também aconteça.

Quanto ao texto principal: uma excelente análise. É a quarta vez que cá venho e só digo uma coisa: ler este blogue faz falta, vai-se tornar numa das minhas consultas diárias.

Abraço a todos

Lino Soeiro disse...

Ao anónimo 10 de Abril de 2008 15:15, que está tão preocupado com o Tibete, então não o preocupa o Iraque, o Kosovo, a fome em África, a crise imobiliária Americana, o desrespeito pelo protocolo de Quioto, a prisão de alguns milhares, sem culpa formada, por parte dos Americanos, a politica monetária do BCE que têm levado várias familias portuguesas á falência, porque não conseguem pagar as prestações da casita, não é a dos grandes empreendimentos porque esses têm sempre crédito e até têm perdões de dividas, e, também não se preocupa com a politica deste governo PS, que têm tido resultados brilhantes: aumento do desemprego, aumento dos impostos para os trabalhadores dependentes, fecho de centros de saude, escolas, maternidades, congelamento de salários, perda de poder de compra e regalias dos funcionários públicos e por consequência dos outros trabalhadores,aumento das mordomias dos presidentes e assessores dos Institutos públicos, implementação dum SIADAP, que só têm como objectivo não aumentar os ordenados e ser mais facil despedir, um código do trabalho que deixa os trabalhadores como escravos, aumento dos problemas socias, fecho de esquadradas da PSP e postos da GNR, liquidação quase total da agricultura e pesca, inflação a subir e ao que parece o défice, parece que não quer decher, pois os seus boys cada vez ganham mais, cada vez há mais pobres e a concentração da riqueza é cada vez em menos pessoas. Propaganda na televisão, com o Simplex e depois vêm a verificar-se que os sitemas informáticos são lentos e não respondem há solicitações dos utentes, objectivos dentro dos serviços completamente fora da realidade e que não visam o melhor atendimento, mas sim o funcionamento para dentro. O PCP não pode compactuar com este tipo de politica, e por isso não pode deixar de criticar quem a faz seja PS ou otro partido qualquer.