Bravo Michèle Audin !
Quase ocasionalmente, descubro na Marianne online a notícia de que a prestigiada matemática e Professora na Universidade de Estrasburgo (com vasta obra publicada) Michèle Audin (foto à esquerda) recusou a Legião de Honra que o Estado francês lhe pretendia atribuir na base dos seus méritos científicos.
O interesse da notícia e o forte significado deste gesto estão em que Michèle Audin é filha do também matemático e comunista argelino Maurice Audin (segunda foto à esquerda), detido em 11 de Junho de 1957, barbaramente torturado e, depois, com toda a probabilidade asssassinado por paraquedistas franceses durante a guerra da Argélia mas que, ainda hoje, permanece oficialmente como «desaparecido».

Para a sua recusa da Legião de Honra, Michèle Audin invoca muito justamente a circunstância de a serena mas emocionante carta aberta que, no 50º aniversário do rapto do seu marido, a sua mãe Josette Audin (terceira foto à esquerda) enviou ao Presidente francês Nicolas Sarkozy não ter tido qualquer consequência e nem sequer ter obtido qualquer resposta.
Como aqui neste «post» oportunamente se relatou, Josette Audin nem sequer reclamava a identificação dos torcionários e assassinos ou o julgamento dos que estivessem vivos mas apenas o oficial «reconhecimento dos factos» que lhe permitissem a ela e a sua filha fazer finalmente o seu verdadeiro e irrecusável «trabalho de luto». O silênc
io e o absoluta indiferença que o mais alto responsável da República francesa, François Sarkozy, dedicou ao pungente apelo de Josette Audin mostra, por um lado, como foi puro oportunismo a sua utilização da figura do jovem resistente comunista Guy Mocquet assassinado pelos alemães e como os crimes cometidos por militares franceses durante a guerra da Argélia contiinuam a ser segredo de Estado. A este respeito, como já aqui fizémos, basta lembrar que só 45 anos depois da independência da Argélia, as autoridades militares francesas consentiram finalmente em entregar às autoridades argelinas os mapas das minas que colocaram durante a guerra e que, nas décadas seguintes, provocaram centenas de vítimas. Bravo pois Michèle Audin por esta justíssima bofetada que honra a memória heróica do seu pai e o meio século de persistência da sua mãe e dá testemunho do valor incomensurável da verticalidade e da dignidade humanas.
A carta aberta de Josette Audin a François Sarkozy
pode ser lida aqui.
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